Luz nunca é D+ com Adriana Medeiros

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Quem é Adriana Medeiros sem câmera fotográfica?

“Adriana Medeiros usa muito pouco a câmera fotográfica e às vezes até esquece q tá com ela. Precisei fotografar muito sem câmera, conversar muito, observar muito e errar muito para entender os benefícios, vícios e arte q a técnica pode proporcionar. Um deles, que começo a superar é estar atrás de uma câmera, é uma exposição e um esconderijo, uma proteção cínica, que nos separa d tudo, mesmo nos sentindo dentro da história, participando d tudo ativamente, com o poder de mostrar, denunciar, rotular. Não quero mais isso. Quero me sentir um corpo ocupando um espaço novamente. Lembro sempre de uma foto da Claudia Andujar de um ianomâmi ao seu lado. Não era um retrato de perfil, ele realmente estava simplesmente ao seu lado, como se ela estivesse entre outros índios numa roda. Isso me tocou muito. Foi o angulo mais simples e mais surpreendente que vi.”

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De que maneira essa Adriana Medeiros descrita, contribuiu para seus trabalhos autorais?

“Em mim funciona assim: a ética, que não deve diferenciar o pessoal do coletivo, nem a teoria da prática; o autoconhecimento e afirmação do mesmo e o amor pelas pessoas e pelo o que faz. Esses caminhos se encontram num só ponto que constituem a Adriana Medeiros com ou sem máquina e o quanto mais plena e inteira, mais livre, feliz e aberta para decidir o foco, a aproximação, os limites, o momento, a luz e a sombra. Aposto no envolvimento sempre, assumo minha presença e dou espaço e voz ao assunto ou pessoa fotografada. Não tem fórmula, é só honestidade, paciência e amor. Funciona em tudo na vida, por que não funcionaria na fotografia?”

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O que te levou a realizar o trabalho INcorpos?

“O começo é sempre um encantamento. Uma irrecusável identificação, que, claro, se referia ao meu ser mulher desconhecido e minhas opções pela justiça e pela transformação. No começo não tinha corpo. Sequer encontrei imagens que pudessem me acolher. Fui acolhida pela saúde, por seus profissionais e depois pelas famílias, todos muito generosos comigo. Então os caminhos foram se apresentando e as idealizações foram tomando formas, cores e espaços. Em um primeiro momento, buscava o feminino e encontrei vários, inclusive em mim; já num segundo momento percebi outros sujeitos ligados a esses femininos de muitas formas, percebi a cultura e as condições sociais no mais privado momentos de dor e prazer. Esse trabalho teve muitos nomes ao longo do tempo e cheguei ao INcorpos por ser o nome que mais dinamizou todas essas experiências de interno e externo, individual e social, pessoal e político, invisível e visível.”

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Conte pra nós alguma situação nesses 10 anos de documentação que tenha marcado/emocionado?

“Oh, são muitas! juro que nunca vi um nascimento que não me emocionasse e me marcasse. É um reboliço só antes, um grande desafio durante e um apaixonamento depois. Recomendo. Vi mulheres se tornarem crianças, mães se tornarem filhas, homens tentarem ser mulheres, casais se separarem ou se reconciliarem, crianças crescerem, aprendi muito sobre a vida, sei hoje que um filho nunca morre para uma mãe, sei a diferença entre uma morte justa e uma vida roubada. Sei o que tudo isso representa para um país. Para a história. Aprendi a respeitar o tempo e as diferenças, em nome da vida. Tudo é menor que a vida.”

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De onde vem a inspiração para continuar fotografando?

“De onde vem a conspiração de parar de fotografar? Nós vivemos um mundo que alimenta o desencantamento, desencoraja a experiência, deprecia os sentimentos, seja de alegria, idealismo ou dor, um mundo que investe no controle e no medo. E o que é pior: somos levados a acreditar que vivemos nesse mundo! Que esse assim é o mundo! Então nos vemos impotentes, insatisfeitos e sem saída. Já me senti assim muitas vezes, mas passou e voltou e passou de novo. O que chamam de utopia é o que não vemos, mas isso não quer dizer que não exista e seja impossível. Existe, é possível, é simples e está próximo. Só que está se construindo silenciosamente, sem nenhuma luz especular, no dia a dia, baseado em valores outros, relações outras q se divulga. Acredite, eu acho a realidade tão surpreendente e mágica que seria incapaz de criar uma ficção tão impressionante! A imaginação vem da realidade. Agora, não basta fotografar um assunto para que ele tenha visibilidade. Temos que lidar com a percepção, com os estereótipos e os espaços e o “como’’mostrar. Aí vem o maior desafio. Mostrar, expor, fazer ser visto. E esses muros aos quais me referi está em nós, em nossas redes, em nossa vida. Esse assunto que hoje exponho, eu nunca tinha visto e quando comecei a ver e tentei mostrar, não encontrei quem quisesse ver. Diziam que não queriam ver sangue, que não tinham coragem, que achavam horrível. Eram amigos, mulheres, curadores. Pessoas como eu, como você, seja lá quem esteja lendo isso tudo!”

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Você sugere algum filme, livro, foto, pintura, receita ou texto para contribuir com os leitores do Favela em Foco? Por que a escolha?

“Gosto muito de literatura, em especial utilizo leituras que me deslocam do óbvio, que viajam pelos sentidos e sentimentos e pelas culturas locais… Machado de Assis, Cruz e Souza, Aluísio Azevedo, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Garcia Márquez, Saramago, Rilke, Paulo Leminsky, Alice Ruiz, Raquel de Queiroz, Virginia Woof, Sylvia Orthof, Clarisse, de natureza Lispector. A gente tem fases em que descobre autores, esses fazem parte de muitos momentos de minha vida. Pinturas, também amo tanto quanto conhecer a história de seus pintores, já amei Picasso, Caravaggio, Van Gogh, Edward Hopper, Frida Khalo; Todos em algum momento acreditaram mais em suas paixões do que no reconhecimento, todos encontraram caminhos únicos e são muito fortes, geram silêncio e tempo, emocionam. Filmes também adoro, em especial de Akira Kurosawa e Abbas Kiarostami. Também música, teatro, os pais de todas as artes onde aprendemos tudo, de onde tudo vem.”

Confira mais imagens em nossa galeria

 

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Sobre Coletivo Favela em Foco

A história Tudo começou no ano de 2007 na favela do Jacarezinho, depois de jovens da comunidade experimentarem uma oficina de fotografia dada por Fabio Caffé e Rovenna Rosa, fotógrafos da agência fotográfica Imagens do Povo, do Observatório de Favelas. Oficina essa que fez despertar o olhar dos jovens, e assim decidiram se reunir para criar uma mídia alternativa. Documentando o dia a dia da favela do Jacarezinho, no conceito de cultura/arte e a falta delas. O projeto era financiado pelo Cenpec e o Itaú Social, nos quais disponibilizavam verba para a condução do projeto. O projeto era feito na Ong Saúde e Cidadania, na favela do Jacarezinho. Onde os jovens criavam pautas, com a intenção de criar uma revista, que seria distribuída sem custo algum aos moradores do Jacarezinho, e as comunidades próximas, além dos colégios, ongs, empresas próximas. O projeto foi batizado de “Jacarezinho em Foco” e foi criado justamente para levar informação verdadeira de um cotidiano de vida muito pouco explorado. E que essa informação fosse distribuída por outros meios de comunicação (vídeos, blogs, sites de relacionamento). Com a proposta real de mudar o estereotipo que ainda se tem da favela, e que os temas abordados nas pautas sejam vistos com mais sensibilidade. Mostrando para quem quiser ver que na favela existe sim, gente que faz e acontece, tem suas dificuldades como em qualquer outro lugar, mas vive com harmonia e felicidade no local onde nasceu, cresceu, que vive onde vive por opção, e não por necessidade. Eram 6 pautas abordadas, cada qual com sua peculariedade de informação. Os jovens se organizavam para ir nas casas das pessoas, e assim se familiarizando com os moradores da comunidade. Sendo que, depois de 2 meses de projeto e 1 edição criada, o projeto infelizmente não teve continuidade. Já que os financiadores não permaneceram devido a cláusulas no contrato onde se dizia que o financiamento só seria feito no inicio do projeto, e que logo em seguida deveria ser tocado sozinho. Ou seja um auto sustentamento no qual não foi pensado na criação do projeto. Assim sem verba, alguns do jovens do Jacarezinho disperçaram um pouco, outros por necessidade precisaram sair para arrumar emprego. Infelizmente não foi dado continuidade, mas os jovens que permaneceram focados no que queriam, não desistiram. E no ano de 2009 os poucos jovens que ainda sonhavam com o projeto, se inscreveram na escola de fotógrafos populares por intermédio do antigo e até então professor e fotógrafo Fábio Caffé. Assim foi se reascendendo a chama mais uma vez pela fotografia. Assim, sabendo da dificuldade de divulgação do até então “Jacarezinho em Foco”. O professor Fábio Caffé deu uma forcinha, e informou a revista Viração, lá de São Paulo sobre o trabalho que tais jovens haviam feito. Logo depois de 1 mês depois da conversa... surgiu o interesse da redação da revista de divulgar uma galeria de fotos dessa galera na edição. Bem, feito isso os jovens começaram a criar esperanças mais acessas novamente. E, começaram a se reunir junto com outros integrantes da escola, inclusive fotógrafos formados da própria escola, para dar continuidade no projeto. Enquanto os jovens começavam a se reunir para o que de verdade gostariam de fazer... Alguns exemplares foram enviados e apresentados aos alunos da escola de fotógrafos populares, em sala de aula. Foi ae que a emoção tomou conta de todos, e de principalmente dos jovens participantes do “Jacarezinho em Foco” era uma parte do sonho sendo realizado. O que serviu de estímulo para a galera, e depois de algumas reuniões foi criado o até então, Coletivo Multimídia Favela em Foco.
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