Paz, Pacificação e UPP na favela


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Nunca aceitei o termo “pacificação”, adotado como slogan pelo governo e repetido por todos os meios de comunicação. Por consenso paz é um estado de espírito desejado e que pode ser alcançado individual ou coletivamente. Muitas vezes é confundido com plenitude, já que não podemos ter paz enquanto não saciarmos nossas necessidades básicas. Então Sem escola não há paz, sem saúde não há paz, sem saneamento básico não há paz, sem lazer não há paz… mas o povo guerreiro das favelas sabe onde encontrar paz, solidariedade, alegria e vontade de viver apesar de tudo.

Foto: Luiz Baltar

Foto: Luiz Baltar

A paz é um estado de equilíbrio e entendimento em si mesmo e entre outros, onde o respeito é adquirido pela aceitação das diferenças, tolerância, os conflitos são resolvidos através do diálogo, os direitos das pessoas são respeitados e suas vozes são ouvidas, e todos estão em seu ponto mais alto de serenidade sem tensão social. Podemos afirmar que a política de “pacificação” não tem como trazer paz para os moradores das comunidades ocupadas, seu objetivo é garantir a sensação de segurança para os moradores do restante da cidade, ou para quem transita nas regiões ocupadas utilizando de força policial e controle territorial onde a democracia não pode ser exercida fora das atividades permitidas.

Foto: Luiz Baltar

Foto: Luiz Baltar

Paz para quem?

Pelas informações do site oficial do BOPE, com o decreto nº 42.787 de 06 de Janeiro de 2011, ficou estabelecido o programa de pacificação, dividindo a implantação de UPP em quatro fases:

1) Intervenção tática;
2) Estabilização;
3) Implantação da UPP;
4) Avaliação e Monitoramento.
O BOPE, como todos sabem, é o batalhão de operações especiais, uma força de intervenção militar treinada para situações críticas e de guerra ao tráfico de drogas. Com mais de três décadas de existência protagonizou inúmeras operações em favelas que terminaram com chacinas e mortes de moradores. Apesar disso, o BOPE ficou encarregado da missão de “pacificar” as comunidades, segundo afirmam no site “…a unidade não somente ocupa o terreno, mas também promove atividades de interação com a comunidade, como reuniões, torneios esportivos, eventos religiosos entre outros.” Com as ações desse novo “comando” as UPPs se tornaram os novos “donos do morro”, decidindo o que pode, o que não pode e quem pode.

Foto: Luiz Baltar

Foto: Luiz Baltar

Segundo Maria Helena Moreira Alves, Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts e autora do livro Vivendo no Fogo Cruzado (Unesp), “Onde as UPPs foram instaladas há um Estado de exceção. As pessoas têm seus direitos constitucionais mais básicos desrespeitados no dia a dia. Os policiais entram e saem das casas quando querem, atiram em quem querem, tudo com a justificativa de que se está combatendo um inimigo maior, o traficante. Não é nada muito diferente do que acontecia na ditadura… A polícia mata mais hoje do que na ditadura militar, sem que a sociedade brasileira, em especial as classes média e alta, demonstrem a mesma indignação de outrora. Duas missões da ONU já vieram ver o que acontece no Rio e fizeram relatórios muito sérios”

 

Queremos ser felizes e andar tranqüilamente na favela em que nascemos.

Nesses 5 anos de existência as Unidades de Polícia Pacificadora não conseguiram romper com o modelo de segurança pública que remontam ao império e apenas a continuam colocando em prática as duas primeiras fases do programa de pacificação do BOPE, que são: 1) Intervenção tática; 2) Estabilização.

 

Após as últimas manifestações que acabaram duramente reprimidas, no Complexo do Alemão e em Manguinhos, surgem Plenárias e Assembléias Populares, mostrando que a demanda dos moradores continua sendo por participação e diálogo sobre o futuro da segurança nas favelas. Os moradores do Complexo da Maré preocupados com as violações de direitos que podem ocorrer durante a maior, e talvez a mais bélica, das ocupações militares, estão também se organizando para promover eventos artísticos e assim mobilizar a comunidade e chamar a atenção da população do Rio de Janeiro. A intenção é que não se repitam casos como o desaparecimento do Amarildo na Rocinha e de assassinatos de jovens por policiais como: André de Lima Cardoso (19 anos) Pavão-Pavãozinho, José Carlos Lopes Júnior (19 anos) morador de São João, Thales Pereira Ribeiro D’Adrea (15 anos) e Jackson Lessa dos Santos (20 anos) Morro do Fogueteiro, Mateus Oliveira Casé (16 anos) Manguinhos, Paulo Henrique dos Santos (25 anos) Cidade de Deus, Aliélson Nogueira (21 anos) e Israel Meneses (23 anos) Jacarezinho, Laércio Hilário da Luz Neto (17 anos) Morro do Alemão.

Foto: Luiz Baltar

Foto: Luiz Baltar

Como disseram os moradores do Alemão em seu manifesto: “As propostas de “PAZ” devem ser construídas coletivamente com toda a favela. Não se constrói uma política de paz, com o pé na porta, agredindo gratuitamente seus moradores, não se constrói paz com caveirão. No atual modelo, “independente de quem manda”, os moradores continuam sem ter sua voz ouvida.Temos a consciência que o pobre tem seu lugar.”
Texto e fotos: Luiz Baltar

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Sobre Coletivo Favela em Foco

A história Tudo começou no ano de 2007 na favela do Jacarezinho, depois de jovens da comunidade experimentarem uma oficina de fotografia dada por Fabio Caffé e Rovenna Rosa, fotógrafos da agência fotográfica Imagens do Povo, do Observatório de Favelas. Oficina essa que fez despertar o olhar dos jovens, e assim decidiram se reunir para criar uma mídia alternativa. Documentando o dia a dia da favela do Jacarezinho, no conceito de cultura/arte e a falta delas. O projeto era financiado pelo Cenpec e o Itaú Social, nos quais disponibilizavam verba para a condução do projeto. O projeto era feito na Ong Saúde e Cidadania, na favela do Jacarezinho. Onde os jovens criavam pautas, com a intenção de criar uma revista, que seria distribuída sem custo algum aos moradores do Jacarezinho, e as comunidades próximas, além dos colégios, ongs, empresas próximas. O projeto foi batizado de “Jacarezinho em Foco” e foi criado justamente para levar informação verdadeira de um cotidiano de vida muito pouco explorado. E que essa informação fosse distribuída por outros meios de comunicação (vídeos, blogs, sites de relacionamento). Com a proposta real de mudar o estereotipo que ainda se tem da favela, e que os temas abordados nas pautas sejam vistos com mais sensibilidade. Mostrando para quem quiser ver que na favela existe sim, gente que faz e acontece, tem suas dificuldades como em qualquer outro lugar, mas vive com harmonia e felicidade no local onde nasceu, cresceu, que vive onde vive por opção, e não por necessidade. Eram 6 pautas abordadas, cada qual com sua peculariedade de informação. Os jovens se organizavam para ir nas casas das pessoas, e assim se familiarizando com os moradores da comunidade. Sendo que, depois de 2 meses de projeto e 1 edição criada, o projeto infelizmente não teve continuidade. Já que os financiadores não permaneceram devido a cláusulas no contrato onde se dizia que o financiamento só seria feito no inicio do projeto, e que logo em seguida deveria ser tocado sozinho. Ou seja um auto sustentamento no qual não foi pensado na criação do projeto. Assim sem verba, alguns do jovens do Jacarezinho disperçaram um pouco, outros por necessidade precisaram sair para arrumar emprego. Infelizmente não foi dado continuidade, mas os jovens que permaneceram focados no que queriam, não desistiram. E no ano de 2009 os poucos jovens que ainda sonhavam com o projeto, se inscreveram na escola de fotógrafos populares por intermédio do antigo e até então professor e fotógrafo Fábio Caffé. Assim foi se reascendendo a chama mais uma vez pela fotografia. Assim, sabendo da dificuldade de divulgação do até então “Jacarezinho em Foco”. O professor Fábio Caffé deu uma forcinha, e informou a revista Viração, lá de São Paulo sobre o trabalho que tais jovens haviam feito. Logo depois de 1 mês depois da conversa... surgiu o interesse da redação da revista de divulgar uma galeria de fotos dessa galera na edição. Bem, feito isso os jovens começaram a criar esperanças mais acessas novamente. E, começaram a se reunir junto com outros integrantes da escola, inclusive fotógrafos formados da própria escola, para dar continuidade no projeto. Enquanto os jovens começavam a se reunir para o que de verdade gostariam de fazer... Alguns exemplares foram enviados e apresentados aos alunos da escola de fotógrafos populares, em sala de aula. Foi ae que a emoção tomou conta de todos, e de principalmente dos jovens participantes do “Jacarezinho em Foco” era uma parte do sonho sendo realizado. O que serviu de estímulo para a galera, e depois de algumas reuniões foi criado o até então, Coletivo Multimídia Favela em Foco.
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